sábado, 21 de novembro de 2009

A Cura de um Surdo Mudo
Karin Hellen Kepler Wondracek, 2003

Jesus saiu do território de Tiro e voltou para Sídon, em direção do mar da Galiléia, atravessando o território de Decápole. Trazem-lhe um surdo, que falava com dificuldade, e lhe suplicam que lhe imponha a mão.
Tomando-o à parte, longe da multidão, Jesus pôs os dedos nos ouvidos dele, cuspiu e tocou-lhe a língua.
A seguir, erguendo o olhar para o céu, suspirou. E disse-lhe: “Effatá”, isto é: “Abre-te”. Logo se lhe abriram os ouvidos, a língua se lhe desatou, e ele falava corretamente. Jesus recomendou-lhes que não falassem disso com
ninguém: mas, quanto mais recomendava, tanto mais eles o proclamavam. Eles ficaram muito impressionados e diziam: “Ele fez bem todas as coisas: faz os surdos ouvirem e os mudos falarem”

Marcos 7, 31-37

Na religião judaico-cristã a palavra ocupa um lugar central. Por isso, a cura deste surdo-mudo, relatada de modo tão discreto em Marcos 7, 31-37, adquire um significado maior do que aparenta.
Não nos é dito se esta pessoa era um judeu, mas o relato se faz no contexto deste povo. Para um judeu, poder ouvir a Deus e poder orar a Ele fazia parte da sua identidade – “ouve, ó Israel” – o hebreu é o povo que ouve o seu Deus irrepresentável, e que repete todos os dias o Shema Israel - , o texto de Deuteronômio 6,4-9, que determina que o viver diário, em todos os seus âmbitos, esteja permeado desta escuta. Esta prática foi ligada diretamente com a saúde – nosso tema destes dias: em hebraico, o Shema Israel tem 248 palavras, que correspondem aos 248 órgãos que se cria formarem o corpo humano. Recitar estas 248 palavras representava fazê-lo pelos 248 órgãos do corpo; isso era fonte de saúde. Não é só a boca que orava – mas o fígado, o rim, a bexiga, cada músculo e cada tendão...
Para o hebreu, ser surdo e mudo significava estar alijado da essência da devoção, incapacitado de realizá-la pelo ouvido e pela palavra. Para a psicologia, não escutar nem falar significa não desenvolver a característica mais intrínseca do ser humano, o acesso à linguagem.
Este o pano de fundo para tratarmos dessa cura, que será feita de acordo com as linguagens de compreensão do enfermo. Nem sempre um cuidador segue esta dica de Jesus, e tenta enquadrar aquele que busca auxílio na linguagem que domina, e declara os demais de incuráveis ou rebeldes. Estudar as curas de Jesus também nos inspira, como cuidadores e curadores, a sermos sensíveis e versáteis. Com o surdo-mudo Jesus vai usar uma linguagem não-verbal. Esta é classificada como mais arcaica, pois remete a um período mais precoce – anterior à palavra, tempo no qual a relação do bebê com sua mãe passa pelas linguagens dos outros órgãos dos sentidos. Para o bebê, é este contato na intimidade que o constrói como ser humano – pelos gestos da mãe, por seu olhar, aconchego e alimento, ele vai sendo humanizado.
A cura do surdo-mudo vai ser feita em seis passos, cheios de simbolismo:
1. Jesus, no início da cura, “conduz-o à parte, longe da multidão” – imaginemos a cena desta condução – uma condução não-verbal, um afastamento da multidão,para longe da massificação. Deixar-se conduzir exige uma confiança mais primitiva, originada não na fala, mas em outros signos. E lá, na intimidade do contato, o doente é cuidado na individualidade das suas dores para longe da massificação. Deixar-se conduzir exige uma confiança mais primitiva, originada não na fala, mas em outros signos. E lá, na intimidade do contato, o doente é cuidado na individualidade das suas dores
2. “Pôs os dedos nos ouvidos” – literalmente, “pôs o dedo na ferida”. A mão é fonte de contato, é canal de passagem do poder curador. Mas, também tem sua ambigüidade, pois pode ser meio de agressão. Deixamos que Jesus ponha a sua mão onde dói, ou fugimos, traumatizados com o passado, do toque necessário para a cura?
3. Cuspiu e tocou-lhe a língua – Tocar com saliva é gesto de mãe que aplaca a dor e limpa a ferida do filho com suas secreções. Não é o distanciamento da palavra que sai da sua boca, mas o líquido – remetendo a uma comunicação por líquidos, tal como no útero. André Chouraqui1 traduziu o clamor “tem misericórdia de mim” em uma linguagem uterina – “matricia-me”: “restitui-me a ligação primordial”. Paul Tillich diria – “reconecta-me com a minha essência, que foi criada para estar em contato com o Incondicionado”.2

Freud fala que nosso sofrimento vem da sensação de desamparo, a partir da hora em que somos expulsos do paraíso do ventre e estamos sujeitos à natureza e seus fenômenos. Jesus Cristo, ao acolher nosso pedido de matriciar-nos, restitui-nos, não o paraíso perdido – muitas vezes, este é ilusoriamente vendido pelos mercadores do religioso – mas restitui uma conexão que nos faz suportar o desamparo com amparo.
4. A seguir, erguendo o olhar.... Jesus Cristo olha para o alto, em direção ao Pai. Com o olhar para o alto, encaminha-o para além de si. Foi matriciado, mas, se ficar preso simbioticamente nesta dimensão, não se instala como sujeito. É preciso remetê-lo ao Pai, origem de toda vida. Com o olhar, Jesus o introduz no Shema Israel: “O Senhor é o nosso único Deus”
5. Jesus Cristo suspirou – com o sopro, pode-se expressar tanto: o sopro solidário pela dor; o sopro do Espírito, presença invisível de Deus. Mas também pode ser anúncio do sopro, que depois passará pelas cordas vocais e pela língua, para ser transformado em palavras – um processo que no bebê acontece por imitação e aproximação fonética.

6. E disse-lhe “Effatá” – abre-te. Depois de tantos passos no não-verbal e primitivo, linguagem do bebê, a palavra. E o surdo-mudo desata sua língua e começa a falar – insere-se nos devotos que ouvem a Deus e proclamam que Ele é o único, com todos os órgãos do corpo. Sua cura revela que “o reino de Deus se aproximou.”

PARA PENSAR


O que não consigo ouvir?
- Em mim, do meu caos de impulsos, afetos e desejos?
- Do meu próximo – seu grito de dor, seu clamor, seu desamparo, sua alegria?
- De Deus – do Seu caminho, do Seu chamado, da Sua bênção, da Sua cruz?

E o que está mudo em mim?
- Que linguagem está presa, que órgão fonador não se articula com o sopro do Espírito, para pronunciar as palavras impulsionadas por Ele?
- Que palavras são emudecidas e alojadas no corpo, na forma de dores, doenças, tensões musculares, inibições de prazeres e sentires?
- Que afetos são sufocados na forma de mutismos, angústias, raivas, tristezas e depressões?
- Que palavras são inibidas e transformadas em condutas de agressão – ativas e passivas - contra outros e contra mim?
- Que órgãos são esquecidos? Nossas entranhas ainda são consultadas, como no tempo dos salmistas? Podemos deixar o “Ouve, ó Israel” ser orado com todos os órgãos do corpo?
- Deixamos que nos toque o convite para irmos à parte, para sermos matriciados, elevarmos os olhos, sentirmos o Sopro e o suspiro, para começar a ouvir e a falar?
- Ou nos quedamos surdos e mudos, e desta forma nosso ouvido e nossa língua, mesmo expressando sons revela-se como surda e muda do Sopro Divino, incapaz de levar o matriciar de Deus, o anúncio da chegada do Reino em palavras e gestos?

http://www.cppc.org.br/
Karin Wondracek é psicanalista em Porto Alegre, vice-presidente da região do CPPC.
E-mail: karinkw@gmail.com

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